Olhares de pena? Não, obrigada!

Como evitar olhares de pena? Só há uma maneira – Não contando que se tem um problema! Mas primeiro vamos recuar um pouco.

 

Sou natural de uma cidade. O Smurf de uma vila. Vivemos ambos na vila dele.

Da minha família toda a gente sabe do meu problema desde que foi diagnosticado, bem como das respetivas implicações.

Da família do Smurf sabem apenas que tenho um problema hormonal, e que por isso não tenho olfato. E nada mais!

Quando soubemos que começaríamos a FIV, comecei a pedir-lhe que contássemos.

Entretanto, no momento em que calhou, pensei que tínhamos mesmo de contar, por razões que não vêm ao caso.

Acabámos por só contar à sua mãe. Ia ser estranho eu não estar cá ou ter de sair tantas vezes naqueles 15 dias.

Também deixei de procurar emprego para esta altura e não queria aceitar mesmo que aparecesse. O que para quem não sabe do tratamento é estranho. Não estamos em tempos de recusar emprego, mas a FIV é justificação – não vou para um emprego sabendo que terei de faltar naqueles 15 dias, que não poderei fazer esforços e sabendo que, se correr bem, pode acontecer uma gravidez de risco.

 

Até que, por decisão dele, acabámos por decidir não conta. E ainda bem! Porquê? Simples… Para evitar olhares de pena!

A FIV pode não ser um processo fácil. Pode ser doloroso, principalmente quando não resulta. Mas eu não quero transparecer esses sentimentos. Se não resultar será triste sim, mas é uma tristeza nossa.

Não precisamos que toda a gente à nossa volta pense “coitadinhos, andam a tentar ter filhos e não conseguem”.

Já bem basta estarem constantemente a perguntar “então, quando é que têm um filho?” Talvez a resposta verdadeira ajudasse a que esta pergunta não voltasse a ser feita. Mas a acompanhar a não pergunta, estariam sempre olhares de pena. Por isso, a minha resposta é sempre “Filhos? Ainda nem emprego tenho quanto mais filhos!”

Se custa? Um bocadinho. Mas custa menos do que ser olhada com pena.

 

Ainda por cima quando se trata de uma FIV. Graças a Deus, vamos fazer um tratamento para engravidar. Felizmente não é uma doença grave.

E, mesmo assim, ter de levar com olhares de pena? Epah não! Isso é que não mesmo!

Se (e quando) precisar de chorar prefiro fazê-lo sozinha ou com o Smurf. Não preciso nem quero olhares de pena para acompanhar.

Sempre fui assim. Desde miúda que chorar por tristeza era à noite, na cama, sozinha!

 

Perdi o meu pai aos 12 anos. A minha mãe levou-me à psicóloga. Eu não percebi o motivo. Só mais tarde uni as “peças do puzzle” e compreendi.

A minha mãe estava preocupada e disse à psicóloga que não me percebia, porque eu não chorava.

A psicóloga (com certeza habituadíssima a casos como o meu) perguntou-me se eu preferia chorar à noite, na cama, quando ninguém me via chorar. E eu disse que sim.

Agora percebo a preocupação da minha mãe naquela altura. Eu sou uma pessoa impulsiva, digo tudo o que penso da boca para fora. Mas nisso de chorar é diferente.

Chorar sozinha é a minha defesa! E vou continuar a ser assim. Por isso prefiro que ninguém saiba.

É um tratamento dos dois. Um processo dos dois. Um sofrimento dos dois.

 

Continuamos juntos os dois

A desejar e a lutar um dia sermos três!

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