Quando o corpo não responde. O sonho é adiado

Na ecografia a dtra avisou logo “isto não está famoso…”
Voltei para a sala de espera fazendo contas mentalmente. Aumento de dose = comprar mais medicação = mais 95€ (no mínimo).
Já estava no hospital desde as 8h, tinha feito as análises às 8h20. A ecografia foi apenas às 12h. Passadas duas horas, ainda sem nenhum café e já extremamente impaciente, sou chamada.
Despreocupada mas ansiosa para saber qual a dose para a qual iria aumentar a medicação, entro no consultório.
Diz a dtra “o seu corpo não está a responder por isso vamos adiar 3 meses está bem? Leva aqui a receita do estradiol para fazer nestes três meses e depois volta cá para tentarmos novamente. Passe ali na secretaria para fazer as contas e marcar nova consulta”
Fiquei sem reação. E pensei “passar na secretaria? E mandarem-me embora para poder chorar a notícia à vontade, não?”
Antes de entrar na secretaria limpei as lágrimas, tentando que eles esperassem um pouco. Bati à porta. Entrei.
Assim que comecei a falar não deu mais. Elas saíram sozinhas!
A secretária olhou para mim e perguntou o que se passava.
Quando falei no adiamento ela tentou ajudar “Então e agora? São só 3 meses. Passa num instante. E você ainda é uma bebezinha. Não esteja assim”
Eu sabia tudo o que ela estava a dizer. Mas, no momento de receber a notícia tinha de ser. Aquelas lágrimas tinham de sair.

Saí e liguei ao Smurf (que estava a trabalhar). Eu chorosa a contar-lhe e ele respondeu “Pronto. Deixa lá. Antes parar agora do que irmos até ao fim do tratamento e dar negativo”
Para já porque se não fosse o meu síndrome, ainda não pensávamos em filhos. Ainda não temos casa própria. Eu não tenho emprego fixo. Começar já foi prevenção, para o caso de termos de tentar vários anos… Já estávamos mentalizados que, resultar à primeira, seria quase milagre.
E ele tinha razão, eu é que naquele momento não via nada de positivo.
De facto, entre ir até ao fim e dar negativo ou ser interrompido, é menos mau ser interrompido.
Assim foi só 1 semana de esperanças. Não andei ansiosa com um embrião no útero. Não precisei fazer o teste e esperar para saber que não tinha resultado…

Outra coisa que também me disseram, para animar, foi “Tem calma. Agora, mesmo nestes três meses, tu e o Smurf vão tentando em casa, todos os dias, quem sabe se não terão uma surpresa”
Eu sei que isto foi dito com a melhores das intenções mas a minha vontade foi responder “Não digas isso porque é impossível! Eu não produzo as hormonas necessárias. Eu nem sequer menstruo sem qualquer medicação/pílula” Mas eu sei que foi com a melhor das intenções.
Por isso, limitei-me a responder “Oh, com o problema que eu tenho as coisas não são assim.”
E virei a conversa para o síndrome de Kalman. Depois para assuntos que nada tinham a ver nem com infertilidade, nem com síndrome de Kalman, nem com nada do género.
Mas não queria vir logo para casa. Não queria chegar com olhos de choro. Fui para o Dolce Vita, almocei e dei umas voltas para espairecer a cabeça.

Quando voltei para casa, a contar à mãe dele desvalorizei completamente. “Oh, não deu paciência. Ainda sou nova. Daqui a 3 meses volto a tentar. Nós começámos nestes tratamentos tão cedo porque já sabíamos que não ia resultar logo à primeira”
E a mãe do Smurf perguntou “Mas vocês… É mesmo preciso isso?” [note-se que ela não sabe que andamos a fazer FIV. Sabe que eu tenho um problema hormonal e que andamos a fazer tratamentos para engravidar. Não sabe qualquer tipo de pormenores. Preferimos não contar para não preocupar]. E eu aí, desvalorizando mas não mentido, respondi “É mesmo preciso sim. Com o problema que eu tenho tem mesmo de ser.”
“Mas disseram-te lá, agora?” E eu “Não, disseram-me logo aos 17 anos, por isso é que já andamos a tentar. Porque podemos ter de tentar alguns anos. Assim, começámos comigo ainda nova”
Mas, a mãe dele, sabe de casos que tentaram vários anos. Não havendo nenhum outro caso na família nunca teve necessidade de se informar sobre o assunto. Portanto, pensa que com a idade, o corpo é mais propício a engravidar. E eu também nunca lhe disse que era exatamente o oposto… Disse apenas “Pois…”

Entretanto, para não matar a cabeça com isto, tentei focar-me nos outros 1001 problemas que, já antes, me tinham ocupado o tempo e a cabeça.
À noite, na cama, custa um bocadinho recordar que comecei e nem cheguei ao fim.
Passam perguntas do tipo “Mas porque é que o corpo não respondeu? Se não respondeu agora, na primeira tentativa, com 24 anos, será que vai responder na próxima? E se volta a não responder?”
De manhã, ponho a máscara e “Está tudo bem. Sou tão nova. Não há problema nenhum”

Há quem deixe apenas os sonhos na cama. Eu deixo também os medos! De manhã, ponho a máscara. Escondo a desilusão do adiamento.
A desilusão da primeira tentativa. Aquela em que o meu corpo nem sequer respondeu para deixar que terminasse.

E vamos continuando a viver.
Juntos os dois,
Com o desejo e o sonho de um dia sermos três

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